Em menos de um ano, no mês de junho de 2027, oito cidades brasileiras sediarão jogos da primeira edição de uma Copa do Mundo Feminina realizada na América do Sul, recebendo 32 seleções de todo o mundo. A grandiosidade do acontecimento reforça a necessidade do debate sobre o futebol feminino e demonstra que, ainda que estejamos evoluindo na modalidade, ainda existe desafios a serem superados. Se a geração das primeiras jogadoras a representar o país na seleção não tinha salários e recebia exclusivamente uma ajuda de custo, inclusive nos seus clubes, hoje já existem várias competições do país e internacionais e mesmo de categorias de base, com um cenário consolidado de jogos. Se antes era preciso conciliar a paixão pelos campos com outros trabalhos, hoje já existe toda uma cadeia de mulheres atuando profissionalmente em cada etapa da modalidade, dentro e fora das quatro linhas.
Apesar disso, ainda existe machismo e preconceito. Competições de várzea femininas ou espaços de formação e treinamento exclusivos para garotas são raros e surgem de iniciativas pontuais. Na semana em que é coroada mais uma equipe como vencedora do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, com grandes torcidas enchendo estádios e apoiando suas esportistas, é preciso lembrar que se uma mulher quisesse jogar bola entre os anos 1940 e meados de1980 no Brasil, ela era proibida por lei de praticar esse esporte, sob a justificativa de que teria a saúde física prejudicada.
Hoje, no entanto, apesar das resistências que surgem, inclusive dentro das próprias famílias e de toda a sociedade, já é capaz ver garotas e jovens sonhando com uma carreira no esporte, ou mesmo desejando simplesmente jogar bola, seja por amor ou diversão, em diferentes fases da vida.
Também já é capaz reconhecer e reverenciar toda uma geração de pioneiras que pavimentaram esse caminho e são referências da potência que ainda podemos nos tornar, algumas inclusive trabalhando através da modalidade mesmo depois de de forma oficial ‘pendurarem as chuteiras’.
Márcia Honório, uma dessas precursoras na seleção brasileira e que fez parte da primeira equipe a representar o Brasil em uma Copa do Mundo, fala sobre a emoção desse momento.
“Quando você pega um telegrama daquele e se vê convocada, e quando está fora do seu país e ouve o Hino Nacional, é emocionante até hoje. A gente gostava e tinha garra, uma vontade de querer ganhar para chegar ao país e falar assim: ‘ó, agora vocês precisam ajudar o futebol feminino’”.
A equipe do Caminhos da Reportagem dialogou com especialistas, esportistas e ex-atletas, gestoras, jogadoras de várzea, empreendedoras, garotas e mulheres que vivem e, acima de tudo, amam o futebol. Elas contam como fica a modalidade hoje, os desafios já superados e as expectativas para o que as próximas gerações acharão.
A ex-jogadora Formiga, recordista absoluta em tempo de atuação e em número de vezes representando o Brasil em copas do mundo, reconhece a necessidade desse pertencimento dentro da categoria:
“Eu passei de Miraíldes, a Mira, da família e dos amigos, para Formiga. E só aí vim entender que não só a Miraíldes jogava futebol, existiam outras mulheres que também passaram o mesmo ou pior, que eu não era a única mulher estranha no mundo. Até então eu me achava um ser humano estranho, por ser a única menina ali que jogava realmente futebol no meio dos meninos”.
A jornalista Milly Lacombe lembra a necessidade dessa participação coletiva nos processos: “Eu acho que a principal mudança é a ideia de que juntas, conseguimos coisas, sozinha ninguém consegue nada. Então, a ideia de que a luta pela emancipação feminina não se separa da luta pelo futebol feminino. Eu diria que essa consciência de que a gente é classe, é um grupo, de que vamos juntas. Eu acho isso muito bonito no futebol feminino, que tem uma história de amor que o masculino não tem”, afirma.
O momento é de otimismo e de maior espaço para a modalidade, inclusive por motivo da copa no Brasil, e as entrevistadas imaginam um futuro com mais desenvolvimento para o futebol feminino. A treinadora de times da várzea Lu Leal diz o que espera para as novas gerações: “Meu maior sonho é ver as atletas que estão batalhando alcançar o objetivo chegar, ganhar e ter oportunidades. É o que elas merecem.”
O Caminhos da Reportagem “Elas em campo: futebol, paixão e resiliência” será exibido hoje (5), às 23h, na TV Brasil. No próximo mês, o tema será retomado em outro programa que tratará das condições e do cenário do futebol feminino como profissão e possibilidade de carreira para jovens mulheres.
Com informações de Agencia Brasil

