Na última quarta-feira (26), a Comissão de Saúde da Câmara de Sumaré realizou uma das reuniões mais tensas e controversas do ano. Presidida através do vereador Dudu Lima, a comissão ouviu ex-funcionárias da saúde municipal que movem ações trabalhistas envolvendo assédio moral, perseguição política, racismo institucional, negligência e irregularidades graves dentro de unidades de saúde da cidade.
A oitiva só ocorreu depois de insistência dos vereadores Rodrigo Digão (secretário) e Wellington Souza (vice-presidente), uma vez que, segundo apurado através da equipe do Portal Auge1, Fernanda Nagao cobrou o presidente da comissão através da demora em assinar a aprovação das oitivas, o que permitiu ser interpretado como resistência em permitir que os depoimentos fossem iniciados.
DENÚNCIAS GANHAM FORÇA APÓS FERNANDA NAGAO USAR A TRIBUNA DA CÂMARA
A primeira denúncia, apresentada através da servidora Fernanda Nagao, repercutiu fortemente depois de ela usar a tribuna da Câmara — espaço que, segundo a Constituição Federal e o Regimento Interno, deve ser resguardado pelos vereadores, que possuem obrigação legal de verificar a veracidade dos fatos narrados.
Depois de sua fala pública, outras servidoras se sentiram encorajadas e passaram a relatar situações semelhantes, ampliando a gravidade do caso e tornando inevitável a convocação da comissão.
QUEM FOI OUVIDA NA OITIVA DESTA SEMANA
Foram ouvidas:
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Fernanda Nagao
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Zélia Rocha
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Suzana Paixão
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Kalinka Biagi
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Adriana
Todas relataram situações graves envolvendo unidades de saúde da cidade, inclusive a UPA Macarenko e o Ambulatório de Especialidades.
DENÚNCIA 1 — FERNANDA NAGAO: ASSÉDIO MORAL, PRESSÃO POLÍTICA E ÁUDIOS QUE COMPROVAM CRIMES
Fernanda reforçou que sofreu assédio moral e perseguição política durante o momento em que atuou na UPA Macarenko. Ela apresentou trechos de áudios, já anexados ao processo judicial (que corre em segredo de justiça), comprovando a pressão que servidores sofriam para apoiar politicamente o prefeito e autoridades da saúde.
Um segmento reproduzido aos vereadores diz:
“Infelizmente algumas pessoas vão cair. Nós estamos de olho nos face, no Instagram, pra ver quem está do lado do prefeito e do Rafael. Estamos vendo quem está compartilhando as publicações deles…”.
ANÁLISE JURÍDICA DO ÁUDIO — QUAIS CRIMES PODEM ESTAR CONFIGURADOS?
A conduta relatada configura, em tese, graves irregularidades administrativas e crimes, incluindo:
Assédio Moral (Lei 14.532/2023 + jurisprudência trabalhista)
Obrigar servidor a aderir a comportamento político é forma de coação e abuso hierárquico.
Improbidade Administrativa (Lei 8.429/92 — Art. 11)
Viola princípios como moralidade, impessoalidade e legalidade.
Coação no Ambiente de Trabalho (Art. 146 do Código Penal – Constrangimento Ilegal)
Forçar servidor a seguir, apoiar ou compartilhar conteúdo político.
Crime Eleitoral (Art. 299 do Código Eleitoral — Coação Eleitoral / Abuso de Poder)
Mesmo fora do momento eleitoral, utilizar cargo público para controle ou penalização política configura abuso.
Desvio de Finalidade – Art. 2º, Parágrafo Único, da Lei 9.784/1999
Função pública não pode ser usada como instrumento de fidelização política.
A prática relatada também viola princípios constitucionais básicos:
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Art. 37 – Legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.
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Art. 5º, IV – Liberdade de expressão.
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Art. 5º, II – Ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer algo senão em virtude de lei.
DENÚNCIA 2 — ZÉLIA ROCHA: PERSEGUIÇÃO E RACISMO INSTITUCIONAL
Zélia relatou ter sofrido perseguição da gestora da unidade, chegando a receber advertência por motivo de seu cabelo afro.
Ela explicou que utilizou um turbante porque a touca descartável fornecida não servia em seu cabelo, e, mesmo assim, foi punida. Mais tarde, foi demitida sob alegação de que “não fazia o perfil da empresa”.
A acusação pode configurar:
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Discriminação racial (Lei 14.532/2023 e Art. 20 da Lei 7.716/89)
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Assédio moral
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Violação das normas de igualdade no trabalho
DENÚNCIA 3 — SUZANA PAIXÃO: FALTA DE INSUMOS, NEGLIGÊNCIA E CONDIÇÕES DESUMANAS
Suzana chorou ao relatar:
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mortes por negligência (gravíssimo)
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falta de insumos básicos (luvas, lençóis, materiais simples)
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empregados sem tempo para descanso, banheiro ou alimentação
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ambiente de repouso com um gato, sem ventilação ou ar-condicionado
Segundo ela, chegou a comprar luvas com recursos próprios.
DENÚNCIA 4 — KALINKA BIAGI: PROPAGANDA POLÍTICA VELADA DENTRO DO AMBULATÓRIO
Kalinka relatou que, ao tentar marcar consultas, pacientes recebiam datas muito longas.
Empregados, então, eram orientados a dizer:
“Procure o vereador Ray do Paraíso que ele consegue antecipar.”
Configura viável:
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Abuso de poder político
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Uso eleitoral da máquina pública
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Violação do Art. 73, I e III, da Lei Eleitoral 9.504/97
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Improbidade administrativa
Vídeos sobre o caso estão nos autos judiciais.
DENÚNCIA 5 — ADRIANA: ASSÉDIO MORAL NO AMBULATÓRIO
Adriana reforçou todas as denúncias, acrescentando novos relatos de assédio e pressão psicológica.
ANÁLISE — AS OITIVAS TÊM VALOR JURÍDICO?
Essa é a pergunta central.
De acordo com o Regimento Interno da Câmara de Sumaré, uma Comissão Permanente (como a de Saúde):
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pode convocar servidores e ouvir pessoas;
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mas NÃO pode investigar profundamente sem instrumento formal específico.
Para ter valor jurídico pleno, seria necessário:
um Requerimento aprovado em plenário, autorizando a investigação;
ou
uma CEI (Comissão Especial de Inquérito), com poderes de investigação semelhantes aos de autoridade judicial.
Por isso:
A oitiva da Comissão de Saúde, isoladamente, NÃO tem força investigativa oficial.
Ela tem caráter político, opinativo e consultivo, não jurídico-processual.
Isso significa:
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Não produz provas formais contra gestores
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Não obriga servidores ou secretários a comparecerem
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Não gera relatório com poder de responsabilização
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Não substitui um processo administrativo ou CEI
Pode, no entanto:
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gerar pressão política
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contribuir para a opinião pública
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oferecer elementos para futura abertura de CEI ou investigação formal
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auxiliar denunciantes a darem visibilidade ao caso
Mas sem instrumento formal, a oitiva pode acabar funcionando somente como palco político.
O FOCO VOLTA-SE AOS VEREADORES: HAVERÁ CEI OU TUDO ACABARÁ EM MARKETING?
Até o momento, não existe requerimento aprovado em plenário e nenhuma CEI foi instaurada.
Isso levanta questionamento essencial:
A Câmara fica realmente investigando, ou somente produzindo narrativa política?
RESPOSTA DO VEREADOR RODRIGO DIGÃO AO AUGE1
Procurado através da equipe do Portal, o vereador Rodrigo Digão respondeu que:
“Só se manifestará após ouvir as outras pessoas que serão convidadas.”
Seu posicionamento demonstra cautela, mas também evidencia que a comissão ainda não tem direção clara sobre qual medida formal será tomada.
PRÓXIMOS PASSOS
Nas próximas semanas, precisam ser convidados:
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Secretário de Saúde Rafael Virginelli
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Demais empregados citados nas denúncias
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Gestores das unidades mencionadas
Se a Câmara não abrir uma CEI, as oitivas seguirão sem poder jurídico robusto.
Auge1 seguirá acompanhando todos os desdobramentos com rigor técnico e comprometimento com a verdade.
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FONTES
Depoimentos ouvidos na Câmara; Regimento Interno da Câmara Municipal de Sumaré; Constituição Federal; Código Penal; Lei 8.429/92; Lei Eleitoral 9.504/97; entrevistas concedidas à equipe Auge1.
ASSÉDIO MORAL EM SUMARÉ: COMISSÃO DE SAÚDE OUVE EX-SERVIDORAS, MAS OITIVA SEM CEI LEVANTA DÚVIDAS SOBRE VALOR JURÍDICO .
Com informações de Auge1
